Ismaelino Arara: Pedido atendido

Ismaelino Arara: Pedido atendido

Houve um tempo em que os árbitros de futebol não usavam relógio quando apitavam os jogos. Existia, fora das quatro linhas, a figura do "cronometrista" que era quem determinava o início e o término das partidas. 
Para a turma de hoje pode parecer estranho essa figura no futebol, que juntamente com o arbitro, bandeirinhas e jogadores, fazia parte do espetáculo nos acanhados estádios espalhados pelo Brasil. O Boanerges Sena chegou a ser "cronometrista" no Aderbal Corrêa. 

Vale lembrar que ele ainda existe em outros esportes, como vôlei e basquete.

Quando o Ismaelino de Castro, popular Arara, começou a apitar em 1956, ainda era assim que funcionava por aqui. E é sobre ele que escrevo meus arrazoados de hoje, que faleceu neste domingo de carnaval (26/02), aos 86 anos.

Ismaelino é santareno, nasceu no dia 01 novembro de 1930. Quando estava com 63 anos o entrevistamos para o Projeto Memória Santarena, do ICBS. 
O entrevistador foi o radialista Ednaldo Mota que, na sua primeira pergunta, pediu-lhe que falasse um pouco sobre sua origem, e assim ele começou a se revelar:

"Bem, eu nasci numa família pobre e não posso me envergonhar de dizer que fui filho de uma prostituta. Eu tive um pai só de nome, Luciano Santos, que abandonou minha mãe e ela acabou se prostituindo."

E prosseguiu:
"Minha mãe, mesmo sendo uma prostituta, me deu uma criação que se não posso dizer que foi das grandes, mas que hoje não me envergonho. Com seus ensinamentos eu cresci na vida, constituí família e meus filhos são professores formados em Educação Física e outros ainda estão estudando. Eu estou feliz porque tive uma boa educação. Ela só não morreu nos meus braços, porque nesse dia eu estava apitando o jogo do São Francisco com o São Raimundo".

Quando ainda criança, Ismaelino ajudava no sustento da mãe carregando água para as casas. Não havia água encanada na cidade. Enchia 36 camburões em cada residência. 
Queria ser pedreiro, mas a mãe o colocou pra ser alfaiate. Foi aprender o ofício com seu tio Acácio. Com a tia Raquel aprendeu a ler e escrever, lá na Rua 24 de Outubro.

Aos doze anos abandonou tesoura e agulha do tio Acácio e foi fazer o que queria, trabalhar como ajudante de pedreiro do mestre Manuel Raimundo. 
A primeira casa que ajudou a construir foi a que depois foi abrigar a sede da SUCAM, ao lado da Igreja de São Sebastião. Ganhava 500 reis por dia, três mil por semana. Segundo ele, com esse dinheiro tinha a obrigação de comprar café pra dar pros pedreiros e, se chegasse atrasado, apanhava de colher do mestre Manuel Raimundo.

Aos 49 anos, experiente na profissão de pedreiro, foi prestar serviço na TELEPARÁ. Aprendeu fazer tubulação telefônica no padrão TELEBRÁS, com esse serviço conseguiu melhorar a qualidade de vida da família.

Sobre o apelido:
"Eu era moleque, corria por lá e gritava muito. Um dia me disseram que gritava mais do que uma arara, eu fui me incomodar com isso e desde esse dia pegou o apelido de Arara. Eu passei a brigar, e apanhava mais do que dava. 
Vi que não adiantava e assim fiquei conhecido como Arara.

No futebol começou a jogar no São Cristóvão. Depois foi bi-campeão pelo aspirantes do América, encerrando a carreira no São Francisco, em 1955. 
Jogava na defesa, era zagueiro. Do seu tempo de América lembra bem do Capa Preta e do Estemir Vilhena, que atualmente reside em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Em 1956 trocou a bola pelo apito, foi ser árbitro de futebol, iniciando uma carreira vitoriosa que ficará marcada para sempre na história do futebol amador santareno.

Quando trocou a bola pelo apito estava com 25 anos. Perguntado por que parou tão cedo? Explicou:
"Porque no São Francisco ou em outro time eu não tinha vez. 
O São Francisco foi sete vezes seguida campeão da cidade (1950/56) e eu não me lembro de ter jogado umas dez vezes. Uma das partidas que eu ia jogar era para substituir o Batista, famoso Cecebuta, que tinha sido ferrado de arraia. Eu já estava todo equipado quando ele chegou na sede, deram uma injeção, ele jogou e eu fiquei no banco".

Relembrando seu tempo de apito ele cita que o jogador mais violento que viu aqui em Santarém era militar, o zagueiro Manuel Martins, do São Francisco. 
Mas o jogador que mais foi expulso por ele foi o Darinta, que no Palmeira chegou a formar dupla de zaga com o famoso Luiz Pereira.

Sobre os jogadores disciplinados comentou:
"E não é bajulação, mas ele não reclamava. Ele mostrava que era bom de bola e foi ser titular no Paysandu. Cristovam Sena nunca me deu trabalho, não é pela presença, foi um dos jogadores que nunca expulsei. O Pedro Nazaré, do São Raimundo, também nunca foi expulso. Quando começava uma briga, eu o procurava e ele tava sentado lá muito longe."

Com relação às agressões que sofreu, a primeira foi dupla, do Inacinho e do Ricardo, durante um Rai x Fran, clássico que garante ter apitado mais de 200. 
Em outra oportunidade foi cuspido no rosto pelo lateral esquerdo Marinho, do Botafogo do Rio de janeiro, durante amistoso no Elinaldo Barbosa.
A turma ligada ao futebol conta que nesse dia, na hora da expulsou, ele falou alto pro Marinho: Você está expulso de campo e da cidade. 
 Ele garante que tudo não passa de folclore, que isso não aconteceu.

Mas a agressão mais violenta que sofreu foi fora de campo. Fato ocorrido na Av. Barão do Rio Branco, de noite. Agressão a mando de um cartola empresário, descontente com o resultado da partida em que seu time perdeu. 
Ficou irritado porque gente da Liga tinha-lhe garantido que o Arara "estava no bolso". 
Na hora da agressão, o agressor disse que ia bater até o matar.

O ocorrido mexeu com os sentimentos da família que queria acertar as contas com o agressor. Queria vingança. Mas, como bom cristão, identificados mandante e agressor, Ismaelino perdoou os dois.

Após parar de apitar, passou um período que bebia todos os sábados, chegando embriagado em casa. A família vivia reclamando, até que ele resolveu parar com a bebida.
Os filhos começaram a contar os meses que o pai não bebia. Dia de sábado passava pelos bares e nem olhava, tinha prometido em casa que não ia mais beber.

Quando completou um ano de abstinência, os filhos resolveram fazer uma festa pra comemorar a data. Compraram um garrafão de vinho e enquanto foram arrumar o ambiente, ele aproveitou para tomar um gole. 
Quando começou o falatório dos filhos dizendo "que o papai deixou de beber", ele bebeu mais um copo de vinho, e mais outro e mais outro... 
Encheu a cara e bagunçou com a festa.

Depois dessa parou definitivamente com a bebida. 
Fez Cursilho de Cristandade e começou a trabalhar nas equipes que realizavam os Cursilhos em Emaús. 
Segundo ele, passou a viver de novo.

"Continuo dizendo Ednaldo, que só estarei realizado se eu morrer na paz de Deus, porque o homem só se realiza se ele morrer na paz de Deus. Estou com meus filhos criados, formados, se formando em faculdade, e tudo que eu fiz de 1953 pra cá foi pensando no futuro dos meus filhos. Hoje em dia tenho certeza que meus filhos não se envergonham de mim".

Faleceu aos 86, em casa, rodeado pelos familiares.

Seu pedido foi atendido!


        


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