A grife Dica Frazão - 22.05.2017

O destino colocou a artesã Dica Frazão no nosso caminho.

No período da 2ª Guerra Mundial foi obrigada a deixar Capanema, terra onde nasceu em 29 de setembro de 1920. Casada com Severino da Silva Frazão em 1940, tiveram sete filhos: Paulo, Carlos, Terezinha, Conceição, Socorro, Helena e Lourdes. 
Seu marido era militar e foi transferido para Santarém, aqui chegando em 09 de janeiro de 1943, em pleno efervescer da grande guerra. 
Veio de navio com a família. Desembarcou em frente a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, sua madrinha de batismo, conduzida pelo catraieiro Maia.

A primeira coisa que fez quando já em terra, foi visitar a igreja. Ajoelhada aos pés da Santa Madrinha, jurou aqui permanecer pelo resto da vida. 
Vida que chegou ao fim no dia 19 de maio de 2017. Vida longa, 96 anos, dos quais 74 em Santarém, terra que a acolheu como "Cidadã Santarena" em 15 de dezembro de 1987.

Chegou aqui modista, e logo começou a confeccionar roupa para as senhoras da sociedade. 
A passagem de modista para artesã foi movida pelo acaso. Uma cliente trouxe-lhe coloridas penas de arara e pediu-lhe que fizesse com elas duas rosas para pregá-las numa blusa. 
Preocupada com a encomenda, pois nunca tinha trabalhado com penas, adormeceu pensando nas rosas. Adormeceu e sonhou! Sonhou que fazia um enfeite de parede que parecia uma colorida cauda de pavão, e quem olhava o enfeite dizia logo que queria um igual, pelo poder de encantamento que o enfeite possuía.

No dia seguinte, além de confeccionar as duas rosas, encomenda da freguesa, seguiu a intuição do sonho e criou seu "enfeite de parede", nascendo assim o artesanato santareno com a grife Dica Frazão. 
Quem pode duvidar que não foi sua Santa Madrinha quem lhe mostrou, através do sonho, o caminho da arte, maneira mais fácil de aqui fixar a afilhada, que na chegada jurara morar em Santarém até o fim da sua vida?

O enfeite de parede do sonho transmudou-se em ventarolas, que depois evoluíram para os leques, e a imaginação da noviça artesã nunca mais parou de criar. 
O sonho representou o divisor de águas em sua vida e na do artesanato santareno, que se resumia, até àquela data, praticamente às bonecas de pano e as cuias pintadas do mestre João Fona.

As primeiras encomendas surgiram do Rio de Janeiro em 1950, para onde a ventarola do sonho seguiu nas mãos de uma turista ocasional, transformando-se no disseminador da criatividade pulsante da nossa Dica Frazão.

Em seguida, seu amigo Dácio Campos, na época agente da Panair do Brasil em Santarém, recebe carta de uma empresa do Rio de Janeiro, solicitando que localizasse a artesã que preparava aquelas ventarolas de penas, e informasse que quantidade ela teria capacidade de produzir para atender o pedido dos seus fregueses. 
Dácio foi além, pediu que ela preparasse um mostruário e enviou para o empresário no Rio de Janeiro. A partir daí Dica Frazão começava a conquistar o Brasil, em seguida o mundo. 
Em Belém, nesse mesmo período, quem primeiro descobriu o seu artesanato foi Altino de Brito Pontes, proprietário da perfumaria Flora, o antigo "Buraco Cheiroso" da Manoel Barata.

No início os fregueses eram obrigados a trazer as penas das aves para que fossem confeccionadas suas encomendas, porém essa fase durou pouco. Em nome da ecologia, as penas de arara, gavião, pavão e garça, suas preferidas, foram gradativamente sendo substituídas por penas de paturi, patos, perus e gansos. Chegou a criar mais de 400 aves domésticas em seu quintal.

Com a demanda pelo seu trabalho aumentando, foi obrigada a diversificar ainda mais a matéria prima, passando a operar com material que ela mesma ia descobrindo, multiplicando o seu artesanato.

Foi a primeira artesã a utilizar a raiz do patchuli nos seus trabalhos. Depois vieram as palhas de tucumã, buriti e açaizeiro; fibra de caranã, malva e bambu; casca de taperebazeiro, cipó escada de jabuti, tururi e buçu. Foram alguns dos produtos vegetais aproveitados pelas mãos abençoadas da divina artesã.

Uma toalha criada em seu ateliê, adornada com flores de pena de ganso, flores de açaizeiro e fibra de caranã, cobria uma das mesas usadas pelo Papa João Paulo II no Vaticano.

Em 1990 a entrevistei para o Projeto Memória Santarena. Tarefa prazerosa. Primeiro porque ela gostava de falar, de contar detalhes da sua trajetória de vida; segundo porque possuía uma memória fantástica, daquelas de lembrar detalhes tanto da infância como dos fatos atuais.

A conversa aconteceu à Rua Floriano Peixoto nº 281, onde ela residia e funcionava o seu ateliê. Que a partir de 22 de junho de 1999 passou, também, a ser o endereço do "Museu Dica Frazão".

De olhos vivos e brilhantes, na época com 70 anos, demonstrava um vigor extraordinário, uma vontade de viver que nos deixou impressionado, eu e o saudoso Emir Bemerguy, companheiro de entrevistas. 
Queria mostrar tudo, falar de tudo, muitas vezes de forma insistente, a deixar bem claro que tinha gostado da ideia de ser entrevistada, de participar do Projeto Memória Santarena.

Em maio de 2014, quando foi para editar o livro "Dica Frazão, a divina artesã", fruto da transcrição da nossa entrevista de 1990, voltei a conversar com ela, precisava de fotos e outros documentos para ilustrar a obra. 
Já aos 93 anos, a encontrei bem disposta, lúcida, sentada em uma cadeira de rodas, mas em seu ateliê, com tesoura segura na mão, tranquila a trabalhar. Ainda sonhando, fazendo o que gosta e que a deixa feliz: arte.

Passamos a conversar e ela foi desfiando lembranças sobre o nosso encontro de 1990, recordando detalhes daquele dia. Queria saber o que eu estava fazendo. Quando falei o porquê da minha visita ela abriu um sorriso de satisfação, de alegria, e disponibilizou o material que eu tinha ido buscar, com aquela boa vontade que era uma das suas marcas registradas, reconhecida por todos que a visitavam. 
Isso, sem antes contar um pouco mais da sua vida.

Ano passado Dona Dica me telefonou, precisava conversar comigo. Como o livro "Dica Frazão, a divina artesã" se restringiu a relatar a sua vida de artesã, queria continuar a entrevista para poder contar o drama que foi a sua infância e adolescência. No dia 12 de dezembro de 2015 iniciei nova série de entrevistas em que ela contou sua longa vida de aventuras e sofrimentos. 
Fiquei mais uma vez admirado com a sua capacidade de relembrar fatos da sua infância, sua odisseia até chegar a Santarém e desembarcar em frente a Igreja Matriz, no dia 9 de janeiro de 1943.

Pois foi da Igreja Matriz, no dia 20 de maio de 2017, que ela saiu para ser sepultada, encerrando com fecho de ouro sua passagem gloriosa por Santarém. 
Descanse em paz Dona Dica.

Para finalizar, vale registrar que o Museu Dica Frazão, feliz iniciativa do governo Lira Maia, é um museu doméstico, acanhado, que precisa ser ampliado e mantido pelo município. 
Afinal, os museus são os responsáveis por preservar a história e a cultura da humanidade.

Em Santarém, estamos carente deles.


           


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