Tributo ao alfaiate Boanerges Sena - 23.09.2017

Em 1917, no dia 23 de setembro nascia Boanerges Sena. Quatro dias depois, 27, nascia Enilda Andrade. Conheceram-se e casaram em 1941. Tiveram três filhos: Bonifácio, Mariana e Cristovam. Bonifácio faleceu em São Paulo em 1986, aos 44 anos de idade. 

Se vivos fossem, meus pais estariam comemorando hoje 100 anos.

Minha mãe Enilda era a típica mulher de família pobre daquela época. Doméstica, pouco estudo, boa cozinheira, lavava pra fora para ajudar no orçamento de casa. Católica, possuía temperamento afável, era risonha, gostava de conversar e contar piadas.

Meu pai Boanerges, sem afetação, foi o guia moral que tive na infância e adolescência, que sigo até hoje. Nos ensinava através do exemplo. Pena que eu tenha convivido tão pouco com ele.

Alfaiate, com primário incompleto, tinha que muito trabalhar com a tesoura na mão para sustentar a família. Alfaiataria "Centro da Moda", de Robson Riker, foi onde começou a profissão. Depois montou a sua em casa.

Gostava de ler, mas não tinha tempo para a leitura. Assim, por sugestão sua, passei a ler para ele, sentado ao seu lado, enquanto ele costurava na máquina. 
Foi minha iniciação ao hábito da leitura. "Jubiabá", de Jorge Amado e "A velhice do Padre Eterno", de Guerra Junqueiro, foram livros que li para ele e que me marcaram. 
O interessante é que mesmo com pouco estudo, ele era um dicionário ambulante. Durante as leituras, as palavras que eu não sabia o significado, perguntava e ele me explicava na hora.

Morávamos na Rua Siqueira Campos, 37, em frente ao Grupo Escolar Frei Ambrósio. Ao lado de casa morava seu Adalberto Gentil. Ele era telegrafista da Cruzeiro do Sul e dos Correios. Em 1961, chegou a Santarém o telegrafista cearense Otacílio Amaral, com a esposa Márcia e seus nove filhos. Ele também era telegrafista da Cruzeiro do Sul. Foram morar na casa onde residiu seu Adalberto Gentil.

Seu Otacílio era espigado, falava com sotaque carregado dos cearenses da gema. Quando conversava com o Boanerges, parecia que estavam brigando. Ele gostava de poesia e mantinha pequena biblioteca em sua casa. Os dois se tornaram amigos.
Quando no final de 1965 seu Otacílio retornou ao Ceará, ofereceu seus livros para o papai comprar. Fico a imaginar o sacrifício que ele fez para adquirir os livros do seu Otacílio, que nessa altura já morava na Rua dos Artistas, 162, onde funcionou depois o restaurante San Frango.

Fui encarregado de ir buscar os livros. Fretei um carro de boi e fui cumprir minha missão. Estava com 17 anos. 
Empilhei os livros na carroceria e seguimos em direção de casa, que não era longe. Ao chegar na subida do Morro da Fortaleza, vindo pela Rua Joaquim Braga, com o balanço da carroça os livros começaram a cair e eu agoniado atrás recolhendo, pessoas curiosas olhando, me deixando tímido, numa cena chapliniana que guardo com orgulho na memória. Como esquecer! 
Conversando por telefone com o professor Otacílio Amaral Filho há pouco tempo, relembramos essa história. Assim, no final de 1965 o gosto pela leitura acabou levando papai a formar em casa uma pequena biblioteca, que depois foi aos poucos sendo ampliada com os livros adquiridos pelos filhos.

Meu pai teve participação ativa no futebol santareno. Era torcedor do São Raimundo. 
Foi bilheteiro, cronometrista e membro da JDD - Junta Disciplinar Desportiva. Nos idos das décadas de 1950/60, aos árbitros não era dada a prerrogativa da contagem do tempo, pois quem marcava o início e o término das partidas era o cronometrista, que no estádio Aderbal Corrêa ficava instalado numa cabine que dividia as arquibancadas das torcidas do São Raimundo e do São Francisco. Papai foi um deles em Santarém.
Mesmo sendo torcedor do Pantera Negra, papai nunca pelo menos insinuou para eu jogar pelo seu time.

Participou do primeiro Cursilho de Cristandade e depois passou a fazer parte da equipe que organizava os cursilhos. Sua relação com a igreja ia além das missas e cursilhos, ele costurava as batinas do bispo Dom Tiago

Na política, em 1960 votou no homem da Vassoura para derrotar o homem da Espada. Era oposição. Filiou-se ao MDB e em 1972 resolveu se candidatar a vereador. Seu nome foi homologado na convenção, mas o partido, por negligência ou outro motivo qualquer, não registrou sua candidatura na Justiça Eleitoral. Decepcionado, se afastou das lides partidárias.

Boanerges Lino Barbosa Sena, até mesmo pela profissão, era sedentário. Para complicar ainda mais sua saúde, era gordo e fumava. Um enfisema pulmonar o abateu no dia 26 de março de 1974. Morreu cedo, com 57 anos incompletos, deixando viúva minha mãe Enilda, que se foi aos 73 anos, em 1990.

A última vez que conversei com ele, que escutei a voz do papai, foi em janeiro de 1974, numa verdadeira reunião de despedida. 
Mano Bonifácio, que há uma década não vinha a Santarém estava em casa. Além dos filhos, rodeando a máquina de costura estavam Haroldo Sena, Manuel Sena Dutra e Edilberto Sena. Rimos bastante das piadas contadas. 
As risadas do Haroldo eram espalhafatosas. Guardo uma fita cassete desse momento. 
Dois meses depois do encontro o Boanerges morria. Em 1975 era a vez do Haroldo e em 1986 o Bonifácio.

O São Francisco Futebol Clube, através de documento endereçado a minha mãe, datado de 28 de março de 1974, assim se expressou sobre a morte do papai:

"... Boanerges Sena, grande e entusiasta desportista de nossa terra, que pelo seu trabalho, honestidade de propósitos e dedicação, conseguiu conquistar a amizade, admiração e respeito de todos os que militavam no esporte nesse pedaço do Brasil. Embora publicamente contrário as nossas cores, sempre nos mereceu respeito e admiração pela maneira fidalga como nos tratava e acima de tudo, pela lisura e honestidade de suas decisões, tanto à frente da Direção de Futebol da Liga Esportiva de Santarém, como na função de Juiz da Junta Disciplinar Desportiva." 
O presidente do São Francisco Benedito Guimarães assinou o documento.

Com relação à honestidade do papai realçada pelo presidente Benedito, lembro de uma frase que dele escutei, durante umas férias em Santarém, conversando sobre dinheiro: 
" Meu filho, o importante não é ganhar muito, é precisar de pouco." 
Quando oportuno eu repito essa frase do alfaiate, principalmente para a turma de casa e em papo com amigos.

Em janeiro de 1979, já casado com a Rute, (dia 17 de setembro completamos 40 anos de casados) retornei de Belém para Santarém, de onde tinha saído para estudar e jogar futebol em 1968.

No dia 23 de setembro de 1981, em homenagem ao papai, fundamos a Biblioteca Boanerges Sena. Hoje a Biblioteca completa 36 anos de existência. No início instalada na sala de casa. 
Em 1986 a Biblioteca foi registrada no Conselho Regional de Biblioteconomia e recebeu o número 114. No final da década de 1980 saiu da sala e ganhou espaço próprio, construído em cima da cozinha de casa, mas com acesso particular para os alunos. Em 1995 foi transformada no Instituto Cultural Boanerges Sena - ICBS e foi transferida para onde se encontra até hoje: Tr. 15 de Agosto, 1248. Ao lado de casa.

Até quando, não sei!


                    


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