Campo Novo - 14 anos de pelada - 10 de fevereiro de 2018

Campo Novo - 14 anos de pelada

Dentre os temas que nos dias atuais conseguem mudar a direção das frequentes conversas que giram em torno da política, corrupção e lava jato, em qualquer ambiente, está o futebol. 
A rivalidade clubística chega a incitar desentendimentos que são absorvidos pela gozação dos que momentaneamente estão por cima.

A bola, que originou o futebol, foi invenção dos índios. Utilizavam o látex da seringueira na sua confecção.

A bola de futebol que quicou pela primeira vez em Santarém, lá pelos idos de 1912, segundo o historiador Paulo Rodrigues dos Santos registra no seu livro Tupaiulândia, foi trazida de Belém pelos jovens estudantes Felisbelo e Raimundo Sussuarana, Alberico e Almiro Nóvoa, Heriberto e Armênio Guimarães, Trajano Mota.

Nenhum deles teve seu nome relacionado ao esporte local, mas eu os trato como os pioneiros peladeiros de Santarém. 
A bola que chutavam era feita de coro curtido, costurada a mão, e a câmara de ar era uma bexiga de boi.

Bem diferente das que hoje são chutadas nas peladas que se espalharam pelos campinhos da cidade e ganharam notoriedade, sendo a do Arraial, creio eu, a mais longeva, com mais de meio século de futebol e cerveja.

Peladas que comecei a frequentar ainda na década de 1950, no quintal do Grupo Escolar Frei Ambrósio e nas areias da praia ao lado do Trapiche Municipal, onde hoje situa-se o Mascotinho.

A pelada do Arraial ficava na estrada Santarém/Cuiabá, passando um pouco o comércio do Chico Quincó. 
O terreno pertencia ao Carlos Meschede e lá a turma do América era maioria. 
Lembro ainda do Manoel Moraes, Rona, Ataualpa, Nelson, Abdala, Moura, dentre outros americanos. Um dos goleiros era o Antônio Imbiriba, famoso Batida. Os postes de uma das traves eram duas seringueiras, árvores que forneceram a matéria prima para a primeira bola.

Em 1967, uma desavença no Arraial originou a pelada do Urumari, comandada pelos irmãos Manoel, David e João Moraes. que eram donos do terreno. Eu fui com os dissidentes, acompanhei a maioria dos americanos.

Em 1968 saí de Santarém e retornei em 1979. Voltei a frequentar o Urumari, mas o ambiente era outro. 
No ano seguinte abandonei os Moraes, que já não iam com regularidade ao Urumari, e fui brincar minhas peladas no campo do Hilarinho.

Encontrei outros amigos, mas demorei pouco por lá. Um sábado, a arenga entre alguns peladeiros causou nova dissidência. Lá fui eu acompanhando a turma que preferiu deixar o campinho do Hilário Coimbra.

Os dois diretores da COSANPA, Abelardo e Wsnand, encabeçaram a revoada e foram acompanhados pelo Pinga Merabé, Ednei, Álvaro Duarte, Hoyama e mais alguns que não lembro agora.

Saímos e fomos visitar o terreno da COSANPA, em frente ao igarapé do Irurá, hoje assoreado. Nascia ali a pelada da COSANPA. 
Em meados de 1981 teve início a construção do campo que foi inaugurado no ano seguinte. 
Foram mais de vinte anos ininterruptos que brinquei aos sábados naquele campo.

Havia, porém, uma corrente dentro da empresa que questionava a utilização do campo por peladeiros não pertencentes ao quadro de funcionários da companhia.

Não satisfeitos com essa situação, e com medo de sermos expulsos a qualquer momento pelo Sindicato dos funcionários da COSANPA, iniciamos projeto que previa a compra de um terreno para a construção do nosso próprio campo de pelada.

Em dezembro de 1994 nos reunimos no salão de recepções do Brasil Grande Hotel para tratar da compra do terreno. 
Uma turma boa: Wsnand, Jubal Cabral, Eduardo Pinheiro, João David, Darlan, Celso Lima, Silva, Rui Serique, Raimundão, Adil, Abelardo, Miguel Borghezam e Miled. 
Na ocasião elegemos a primeira diretoria do nosso clube, ainda não batizado. 
Diretoria para efetivar a compra do terreno. Wsnand ficou como presidente; Darlan Riker, presidente do conselho fiscal; Jubal Cabral, presidente da assembleia geral.

No dia 25 de fevereiro de 1995 voltamos a nos reunir, agora no consultório do Eduardo Pinheiro, já de posse de um terreno localizado na Rodovia Everaldo Martins Km 4.
Passamos a tratar da construção do campo de futebol e da sede do clube. 
Os advogados Miguel Borghezan e Iguaracy Macambira ficaram responsáveis em escrever a minuta do Estatuto do Clube.

Após dois dias voltamos a nos reunir no ICBS. As reuniões aconteciam, mas não passavam de conversas registradas em atas de reuniões. 
O tempo passava, passei a duvidar que o nosso clube pudesse ganhar vida.

Passados oito anos da nossa primeira reunião, em março de 2002, o sindicato da COSANPA, sem nos avisar com antecedência, interditou o campo alegando que iriam reformar o gramado. 
De maneira dissimulada, fomos expulsos. Passamos a jogar no Iate Clube.

A expulsão deu novo ânimo à criação do nosso próprio campo de pelada, fazendo com que o antigo sonho começasse a se transformar em realidade.
A partir daí entraram em cena as figuras de alguns peladeiros que foram fundamentais para chegarmos aonde hoje nos encontramos. Um deles, Renato Marinho, a quem o clube agradece a dedicação com que se empenhou no início da consolidação do seu patrimônio.

Assim surgiu o Campo Novo, quando forçados pelas circunstâncias, resolvemos transformar sonho em realidade.

No dia dez de janeiro de 2004 aconteceu a sua inauguração com a primeira pelada. 
Por pura coincidência, marquei o primeiro gol, de pênalti. 
Um belo gol, diga-se de passagem.

Vale ressaltar que o nome Campo Novo foi escolhido numa reunião na residência do Renato Marinho, sugestão do peladeiro Eduardo Pinheiro.

Nesses 14 anos de existência o Campo Novo cresceu, modernizou-se, hoje é um dos tradicionais clubes de pelada de Santarém. 
Uma confraria que se reúne todos os sábados para usufruir de momentos agradáveis, onde o bom papo, a cerveja e o tira-gosto pontificam após o apito final. E não tem hora para terminar! 
De vez em quando um desentendimento dentro de campo para não fugir à regra das peladas. 
É um dos meus vícios, onde exercito o corpo e o espírito.


     


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