Sexta-feira Santa - 30 de março de 2018

Sexta-feira Santa.

Tradição religiosa católica, a Semana Santa celebra a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo. Hoje, sexta-feira, é relembrada a sua morte. 
Quando criança, nesse dia, em casa não podíamos rir, brincar, fazer barulho. As duas rádios de Santarém, Clube e Rural, só tocavam músicas orquestradas. Nos dias de finado, só músicas de cantores já falecidos.

Aproveito a data para comentar sobre o Dr. Aloísio de Andrade Melo (1920/1995). Católico praticante, era amazonense de Floriano Peixoto, médico, amigo e vizinho do meu pai Boanerges Sena, lá no Morro da Fortaleza. Conversei com o Dr. Aloísio em novembro de 1990, colhi depoimento para o Projeto Memória Santarena, juntamente com Emir Bemerguy, ele com a idade de 70 anos. Cinco anos depois, Dr. Aloísio faleceria.

Vou reproduzir uma passagem que o Dr. Aloísio viveu em Fordlândia, que dá bem a dimensão do médico que foi. 
No início se considerava um escravo da medicina, quando trabalhava de domingo a domingo, diuturnamente em Santarém e em Belterra. Aqui chegou recém-formado, com 26 anos. Católico de ir à missa uma vez por semana, relembrou das vezes que, em Belterra, o Dr. Gilett ia buscá-lo na igreja para assistir a chegada do avião, novidade naquela época. 
Saía da missa contristado porque não tinha terminado a missa, não tinha comungado, mas saía porque era uma oportunidade de conversar sobre o hospital com o Dr. Gilett.

Passo então a palavra ao Dr. Aloísio: 
Fui transferido para Fordlândia para assumir o lugar do Clarindo Martins, nosso amigo e irmão, meu compadre dileto... Chegando em Fordlândia ele me disse, vou te apresentar os doentes e os funcionários. Depois fomos passando no mínimo por 60 leitos de doentes, era um hospital de 100 leitos. No fim do dia eu estava com a cabeça maior do que o mundo. Só tinha um médico no hospital.

Passando os doentes para o colega um por dia ou dois por dia é concebível, mas passar 60, 80 pacientes de uma vez só, eu fiquei no fim do dia com a cabeça cheia. 
A preocupação era grande porque estava recém-formado. Saí da faculdade fui para Belterra, passei uns meses depois fui substituir o Clarindo Martins em Fordlândia.
Pediatria, ortopedia, cirurgia geral, fazíamos tudo. Fazíamos até oftalmologia. Ele fazia catarata e eu estava querendo começar a fazer catarata. Eu devagar fui pegando a coisa. Na hora de passar os doentes o Clarindo falou:
- Olha Aluísio esses doentes são todos corriqueiros.

Na mesma hora eu pensei, mas corriqueiro pra mim? Isso é uma responsabilidade que não tem mais tamanho. Aí ele me apresentou uma paciente e disse:
- Olha a única paciente que eu tenho é uma senhora que vai ter criança, não é o primeiro filho, é o segundo. No primeiro parto ela perdeu a criança.

O Clarindo, como mandam as normas e as leis brasileiras, foi obrigado a matar o filho para salvar a mãe. Na verdade eu estava substituindo o Haroldo Franco, irmão do Dr. Eymar Franco, não o Clarindo. E eu, com aquela vaidade própria de quem é novo disse, isso pra mim não é nada demais. E o Haroldo, naquela sua maneira brincalhona, expansiva, me disse: 
- Meu irmão, você parece que está preparado pra coisa. Eu disse, não sei se estou. Ele continuou a me passar o hospital. Por fim eu disse, deixa comigo esse galho, esse galho eu quebro. No dia seguinte ele viajou.

Um domingo, eu estou assistindo um jogo Nacional x Tapajós, dois time de Fordlândia mesmo. Tapajós era o time do Velho Moraes; o Nacional era o meu time, que eu fazia parte como torcedor e dando palpites, talvez inadequados. Foi quando me chamaram para ir ao hospital. Fui e deixei minha mulher no campo me esperando. Quando cheguei lá, era a tal senhora para ter criança.

O que aconteceu muita gente que participou de cursilhos sabe disso, porque sempre era um testemunho que eu dava da minha vida. Examinei a senhora e voltei pro campo. 
Disse para a enfermeira, mais tarde manda a ambulância me chamar em casa. A ambulância foi em casa já de noite, chegando ao hospital verifiquei que a senhora tinha pouca dilatação e a criança já estava em sofrimento fetal. 
Trabalhei como um acadêmico para ver se fazia aquele parto. Mandei fazer anestesia, me sujei de sangue, tomei um banho de sangue.

Lá pras três horas da manhã, já exausto, eu disse bom, as leis brasileiras mandam que a gente para não perder os dois, deve salvar pelo menos um. E eu pensei nisso. 
Mandei buscar um basiótribo. Quando meti uma mão para poder meter a outra levando a colher, a criança, mandada por Deus, provavelmente, segurou a minha mão e eu puxei com medo, com remorso. 
Deixei passar uns minutos e tornei a tentar passar a mão esquerda para poder passar a colher do fórceps. A criança tornou a pegar na minha mão. Ela parece que pedia para eu não fazer aquilo, porque realmente era um assassinato a sangue frio. Então eu disse, suspende um pouco a anestesia que eu vou lá fora.

Cheguei lá fora, tomei um banho, vesti outra roupa e pedi um cafezinho. Nessa hora me entra Frei Tiago (Frei Tiago Ryan, futuro bispo de Santarém, na época vigário de Fordlândia). Ele falou: 
- Rapaz, o que você está fazendo, me disseram que você estava num aperreio? 
Eu disse, é fato. Agora mesmo eu tentei passar o ferro e a criança se negava a morrer. Ele virou-se pra mim e começou a comandar toda cena, toda a situação. E me disse:

- Quem é você? Você se formou pra praticar medicina e procurar salvar vidas. Nunca, em tempo nenhum, Deus deu oportunidade ou deu privilégio pra médico decidir qual a vida mais necessária, se da mãe ou do filho.

Eu disse, mas as leis brasileiras mandam que a gente pode fazer, eu estava cumprindo meu dever. 
Ele disse, que lei? Lei feita por quem? Pelos homens, a lei de Deus não permite, você não tem o direito de saber qual vida é mais necessária. Você tem o direito sim de procurar salvar as duas vidas. Pode perder uma, pode perder as duas, mas tentando sempre salvar as duas vidas. Nunca tem o direito de saber qual a vida mais necessária.

Ainda hoje eu me comovo. Ele começou a me dar ordens: 
- Volte pra sala, procure salvar as duas vidas, não pense no seu nome. Faça o possível de salvar as duas vidas, pode perder uma ou as duas, mas matar uma premeditadamente você não tem esse direito, nem terá nunca, porque está é a lei de Deus.

Felizmente isso ocorreu no início da minha vida profissional.
Ele disse volta pra sala que eu fico rezando. Ele ficou no consultório rezando e eu voltei pra sala. 
Cheguei na sala e disse, intensifica a anestesia, apliquei os medicamentos pra dar contração ao útero e, por incrível que pareça, depois de eu trabalhar mais de três ou quatro horas e não conseguir, a criança veio descendo normalmente, sem eu fazer nada, e a criança nasceu. 
Nasceu homem, uma criança com mais de três quilos, quase quatro quilos. Quando eu saí da sala frei Tiago me abraçou com aquela altura toda, eu com esse meu tamanho pequenino, e comemoramos com mais um cafezinho e ovo quente.

No dia seguinte, isso era perto do natal, um cidadão me aparece lá em casa com um porquinho que pesava mais ou menos 4 quilos e uma cuia com uns seis ovos dentro. 
Doutor, esse porquinho tem o peso que tinha meu filho quando nasceu, para o senhor comer no natal. E realmente nos comemos esse porquinho no natal.

Eu continuei com o meu trabalho diuturno em Fordlândia, depois em Belterra, até que eu resolvi voltar pra Santarém. Em Santarém, dezoito anos depois do acontecido em Fordlândia, eu estou no consultório aqui na Casa de Saúde e a minha atendente Regina me avisa que tinha um cidadão que estava no consultório desde as quatro horas da tarde. Ele queria ser o último a ser atendido. Eu disse tá bom, ele quer ser o último, deixa ele por último. Quando chegou a sua vez ela mandou entrar o cidadão.

Entrou um rapaz alto, forte, pelo menos um metro e oitenta, e disse:
- A benção doutor. Eu respondi meu filho Deus te abençoe, mas eu não sei quem tu és. E ele:
- Papai me disse o seguinte, que eu chegando em Santarém lhe procurasse para me entender com o senhor, que se o senhor não se lembrar de mim, que dissesse que ele lhe deu uns ovos e um porquinho com meu peso.

Fiquei muito emocionado, ainda hoje eu fico. Ele me abraçou, eu o beijei, chorei e telefonei pra Dom Tiago. Eu disse Dom Tiago vai um cidadão aí que eu quero que o senhor conheça, ou reconheça. 
Ele disse venha com ele, eu disse não, não vou. Não vou porque eu estou chorando, e o rapaz foi. 
Era o rapaz que quase eu o tinha assassinado há dezoito anos. Esta, pra mim, é a história mais marcante da minha vida como médico, e daí eu passei a ser católico praticante, não só católico de ir a igreja aos domingos.

No dia 18 de outubro de 1995, dia do médico, em Belém, o Dr. Aloísio foi convidado para participar das homenagens que a direção do Hospital Guadalupe prestaria aos fundadores do hospital. 
Participou da missa, comungou, partiu o bolo comemorativo com o seu nome e dos demais homenageados. Feliz, retornou para casa com a esposa Ruth, dormiu e não acordou mais.

Como comentou seu filho Aloisinho (1949/2013), meu amigo do peito, com quem convivi nos bons tempos de estudantes na FCAP: O coração não resistiu às emoções.


  


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