A filha da Verdade - 05 de outubro de 2018

A Filha da Verdade

Quando adquirimos parte do acervo do Dr. Nestor Orlando Miléo, dentre os livros obtidos estava o "Vesperal", de Coelho Neto (1864/1934), 2ª edição de 1928. 
O livro traz a assinatura do Dr. Nestor, com data de 27/6/1936, valorizando ainda mais a obra.

Aproveito o momento atual que atravessa o país, com evidente falência do sistema político, denúncias de corrupção, desrespeito e intolerância se espalhando pelas redes sociais e simples bate-papos entre amigos, para pinçar o conto "A filha da verdade", extraído do livro "Vesperal", que irei resumir:

“Hermes, o mensageiro dos deuses, chegou até a presença de Zeus para informá-lo que uma das suas filhas mais amadas estava em perigo.
– E qual é ela? Seu nome? – perguntou Zeus.
– A Verdade.
– Uma das mais amadas do meu coração, dizes bem, e a preferida do meu espírito. E que perigo a ameaça?
Fui encontrá-la chorando, fugida dos homens que a apedrejam, ameaçada pelos que frequentam os paços; pelos que legislam; pelos que oram na ágora; pelos sacerdotes que oficiam nos templos; pelos que exercem as artes; pelos que cultivam a ciência; e até pelas crianças. 
Tanto tem ela sofrido dos que a detestam que está à morte e, se lhe não mandares socorro imediato, talvez não veja florir a próxima primavera.

– Mas a verdade é imortal, disse Zeus.

– Só Cronos é imutável e eterno, Padre. Tu mesmo só viverás no tempo através dos teus filhos, que serão outros deuses, dominando em outras religiões. 
A Verdade, porém, desaparecerá sem prole e os homens ficarão privados do esplendor dos seus olhos puros. Só há um meio de conservar a beleza que fenece: é casá-la, desde já, para que transmita para um filho o que a faz admirável e amada dos deuses.

– E não haverá entre os deuses um que a queira como esposa?

– Os deuses preferem a Ilusão. Existe um ser que se prestará a desposá-la. Esse, porém, não o fará pela beleza do rosto, nem pela graça do corpo, nem pelo esplendor dos olhos, nem pela suavidade da voz da tua filha, mas pelos cabedais que lhe deres, se forem em ouro bom, em pedras de valor.
– E esse quem é?

– O Interesse.

– Pois vai e oferece-lhe o dote que te parecer e que se celebre o casamento antes que desabrochem as flores já abotoadas nas árvores.
Hermes foi procurar a Verdade. 
Tomou-a consigo e foram ao encontro do noivo e celebraram-se as bodas. Interesse, o noivo, não chegou a olhar para a beleza da noiva, porque não tirava os olhos dos riquíssimos presentes que recebera.

Após a cerimônia, abandonada, a Verdade ficou encolhida a um canto, foi definhando, só e triste. 
A coitada expirou sem socorro, saindo-lhe da morte uma vida, a filha. 
Foi necessário dar-lhe ama, e como a recompensa pelo serviço fosse generosa, apresentou-se a Ambição para criá-la em seu regaço, educá-la nos seus princípios, e instruí-la com os conselhos da sua larga experiência. 
E a menina cresceu, desenvolveu-se em beleza e em graça, aperfeiçoando-se nas lições que recebera da ama.
Hermes, que a vira nascer e a estimava, levou-a a presença de Zeus. Que deslumbrado com a beleza da donzela disse:

– É linda! E lembra, nas feições do rosto e no donaire a mísera que deu a vida por ela. Que nome tem?

– Ainda nenhum, disse Hermes. Lembra a mãe nas feições do rosto e no donaire, a alma, porém, é do pai e ainda aperfeiçoada pela da que lhe deu o leite da vida. 
O que há nela da Verdade é só a aparência.

– E que nome propões, tu que a conheces?

– Eu lembraria o que, a meu ver, mais lhe convém – Hipocrisia.

– Pois seja, concordou Zeus, e que viva!

– Há de viver e será eterna, afirmou Hermes.
E foi com tal nome que apareceu e triunfou na vida a filha da Verdade”.

E a Hipocrisia se infiltrou nas alcovas, nos palácios, nas igrejas, nos lares, nas academias, nos botequins, nas favelas, nas salas de aula, no judiciário e, principalmente, no ambiente político, onde é grande o esforço dos representantes do povo em demonstrar através dos seus discursos aos eleitores, bons sentimentos, devoção religiosa, patriotismo, honradez, honestidade...

Diante desse quadro de incertezas do momento político, com as eleições para presidente da república acontecendo já no próximo domingo (07/10/18) é que sentimos o quanto estamos órfãos de lideranças que alimentem nossas esperanças por um Brasil melhor para todos.

Na política, identificar o joio para separá-lo do trigo, não é tarefa difícil. 
Não devemos culpar a Hipocrisia pela proliferação dos políticos corruptos e incompetentes, mas a nossa negligência como eleitores. 
Nossa arma para combater o joio é o voto. Não há outra alternativa!

Para finalizar, o Brasil precisa de reformas e os candidatos passaram a campanha a confirmar essa necessidade. 
Que comecem pela Reforma Política, reconhecida como a mãe de todas as reformas. 
Hoje um tabu que amedronta os presidentes, pois desde 1989, com a volta das eleições e a vitória do Fernando Collor, nenhum deles teve coragem política para mandar ao Congresso Nacional um projeto dessa natureza. 
Que o próximo presidente, além de coragem, tenha a lucidez de encaminhá-la durante o seu mandato.




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