Do Real ao Real - 20.05.2016

Do Real ao Real

Devido a esse atropelo todo que estamos vivendo na política nacional, com reflexos diretos na economia, onde muitos estão espantados com a possibilidade da inflação chegar aos dois dígitos e disparar, resolvi contar para os jovens de hoje um pouco sobre a trajetória da nossa moeda, que já enfrentou e continua enfrentado chuvas e trovoadas.

Pode até parecer irreal para muitos que não conhecem a nossa história, mas uma única cédula já chegou a valer 500.000 cruzeiros, e nestes 516 anos de existência a moeda brasileira já trocou de nome nove vezes. É muita troca. Comparável à troca de maridos da Elizabeth Taylor.

Durante os primeiros 442 anos a moeda da Colônia, depois oficializada no Império, foi o Real, cujo plural era réis e não reais (um real, dois réis).

Em 1942 começou o troca-troca. A inflação que surgiu por ocasião da guerra provocada pelos alemães (1939/45), transformou o Real em Cruzeiro e os primeiros três zeros foram cortados pelo Getúlio Vargas, que governou o Brasil por 16 anos seguidos. Período conhecido como Estado Novo, ou era Vargas (1930/45). Assim, a cédula de mil Réis passou a valer um Cruzeiro.

Cruzeiro foi a moeda que convivi na minha infância e adolescência. O Marques de Tamandaré estampava a cédula de um cruzeiro, com a qual eu ia comprar picolé e gelo no Bar Mascote. O nosso descobridor Pedro Álvares Cabral, a de mil, cédula que custei a ter em minhas mãos como minha.

Com a continuação da inflação mesmo após o término da guerra, o poder de compra do Cruzeiro foi aos pouco sendo corroído. Em 1965, já no regime militar, o presidente Castelo Branco (1964/67) corta três zeros da moeda e a rebatiza de Cruzeiro Novo.

Para aproveitar as cédulas do Cruzeiro velho, o Banco Central carimbou as cédulas antigas com a marca Cruzeiro Novo - prática adotada nas futuras mudanças de nome pelos governos que sucederam Castelo. Carimbada, a cédula de mil Cruzeiros passou a valer um Cruzeiro Novo. Como justificativa, o ministro Roberto Campos declarou que a mudança era para apagar a inflação da memória do brasileiro. Bela justificativa!

Ainda no governo do presidente Castelo, em 1967, o Cruzeiro Novo volta a se chamar Cruzeiro. Desta vez a mudança não resultou em corte de zeros. O que veio a acontecer em fevereiro de 1986 durante o governo do presidente José Sarney (1985/90), quando o ministro Dilson Funaro cortou três zeros do Cruzeiro e instituiu o Cruzado.

Além da troca do nome e do corte dos zeros, o governo congelou o salário do funcionalismo público e os preços dos produtos comercializados nos supermercados e feiras livres. A inflação tinha alcançado 252% nos 12 meses anteriores.

Surgiram os "fiscais do Sarney", (lembram?) com direito a usar botton verde-amarelo pregado na camisa e invadir supermercados com uma tabela do governo nas mãos, a denunciar os comerciantes que remarcavam os preços dos produtos que estavam tabelados. Triste lembrança! Ou lambança?

O plano econômico e os "fiscais do Sarney" fracassaram. Houve desabastecimento dos produtos industrializados e agropecuários: arroz, feijão e leite sumiram das prateleiras e as famigeradas maquininhas dos supermercados voltaram a funcionar a pleno vapor. Tínhamos que ser mais rápidos que a turma da remarcação, com frequência os produtos eram remarcados na nossa frente, na hora que íamos apanhá-los nas prateleiras. Nessa época só existia a COBAL para o santareno abastecer sua despensa. Comprava-se de caixas, para o produto durar pelo menos um mês em casa. Os preços subiam diariamente.

Em 1989 Sarney tenta mais uma vez conter a inflação com novo congelamento de preços e lança o Cruzado Novo, sendo cortados três zeros do Cruzado velho. O ministro da fazenda da época era Mailson da Nóbrega, que ainda hoje dá palpites sobre como estabilizar e recuperar a economia brasileira.

Ao tomar posse como primeiro presidente eleito de forma direta após quase 30 anos de regime militar e Sarney, Fernando Collor de Mello (1990/92), conhecido como "Caçador de Marajás", anunciou, através da sua ministra da fazenda Zélia Cardoso de Mello, um pacote de medidas econômicas que paralisou o país. Nele, estava incluído o confisco das até então intocáveis cadernetas de poupança dos brasileiros. A população reagiu com perplexidade, foi decretado feriado bancário de três dias.

O argumento da ministra para adotar tais medidas, foi que precisava enfrentar e derrotar uma inflação que alcançou 6.077,4% nos doze últimos meses do governo Sarney. É isso mesmo, mais de 6.000% de inflação ao ano; mais de 80% num único mês. Assim, Zélia matou e enterrou o Cruzado Novo e ressuscitou o Cruzeiro.

Houve uma segunda versão do Plano Collor. Essa, sem corte de zeros. Mas antes a Zélia caiu e levou consigo o ministro da justiça Bernardo Cabral. Durante festa de aniversário da ainda ministra, os dois dançaram coladinhos, por 15 minutos, 'Besame Mucho'. O affair virou notícia de primeira página na grande imprensa e Collor, para evitar escândalo no seu governo, demitiu os dois.

Escândalo que não conseguiu evitar quando foi "atropelado" por um Fiat Elba, carro adquirido com um cheque oriundo de uma conta fantasma do seu tesoureiro de campanha PC Farias, pivô das denúncias que resultaram no seu impeachment. Primeiro de um Presidente da República no Brasil. Ah esses tesoureiros!

Com a queda do Collor assumiu o vice Itamar Franco (1992/95). Em agosto de 1993 o governo lançou o Cruzeiro Real, com corte de mais três zeros. No carnaval de 1994 o presidente foi fotografado nas arquibancadas da Marques de Sapucaí ao lado de uma jovem modelo. Até aí tudo bem, só que a foto revelou que a modelo estava sem calcinha (creio que devido ao calor). O fato assanhou a oposição, que ainda estava sob o efeito do impeachment do Collor. Quase que o sisudo presidente era apeado da cadeira pela genitália desnuda da modelo.

Foi salvo pelo Plano Real lançado por ele em julho desse mesmo ano, que estabilizou a moeda, amansou a hiperinflação do governo Sarney, elegeu e reelegeu Fernando Henrique Cardoso (1995/2002) e resiste até hoje. Fernando Henrique era ministro da fazenda do governo Itamar.

Nessas nove mudanças de nome, 15 zeros foram cortados. Que os deuses não permitam que outros sejam guilhotinados. Abandonamos o Real com o Getúlio Vargas em 1942 e retornamos ao Real com Itamar Franco, 52 anos depois.

Em 1994 o Banco do Brasil inaugurou no segundo andar da agência da Av. Rui Barbosa um espaço cultural que foi inaugurado com exposição da artesã Dica Frazão. Após a inauguração fui convidado pelo saudoso amigo Sérgio Henn, funcionário do BB, e pelo gerente Ferrão, para fazer uma exposição da nossa coleção de cédulas brasileiras nesse espaço. O governo Itamar estava lançando no dia 1º de julho de 1994 o Real e o banco queria festejar a data. Denominei a exposição "Do Real ao Real". Quase todas as cédulas que circularam no Brasil a partir de 1942 estão na nossa coleção.


                       


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