Hélcio Amaral, o guardador de memórias - 08.06.2019

Hélcio Amaral, o guardador de memórias

"Ubi beni, ibi patria" é uma expressão latina que significa: onde se vive bem, aí é a pátria.

Por isso o Hélcio se considerava santareno, mesmo tendo nascido em Juruti, na fazenda Nava, em dezembro de 1.940. Morou depois uns anos em Óbidos, mas foi aqui em Santarém que passou a maior parte da sua vida, onde construiu família e uma reputação digna das pessoa do bem. Aqui era a sua pátria!

Convivi bons momentos com ele, em conversas diversas e viagens pela região do Lago Grande, éramos amigos.

Lembrava que veio cedo para Santarém - com 16 anos - porque naquela época só três cidades ofereciam curso ginasial para os jovens que queriam estudar: Belém, Manaus e Santarém.
Veio com o irmão Haroldo e ficaram internos no ainda Ginásio Dom Amando, isso em 1957.

Depois estudou no Colégio Rodrigues dos Santos, tendo a professora Sofia Imbiriba como diretora.
Lá formou-se primeiro em guarda-livros, depois em técnico em contabilidade. Antônio Pereira, Eloina Colares, Ataualpa Rebelo, Sílvio Colares, Mourão, Argemiro do Vale, Edson Serique, foram alguns dos seus companheiros de turma no Rodrigues dos Santos.

Formado, nunca exerceu a profissão.
Recebeu convite do comerciante Joaquim da Costa Pereira e foram ser sócios numa loja que o Joaquim tinha comprado do Vicente Malheiros, a "Loja Malheiros", que foi rebatizada por eles para "Casa Paraense".

A "Loja Malheiros", segundo o Hélcio, teria sido a primeira loja de departamentos em Santarém, onde o bom gosto do seu Vicente Malheiros - filho do Aritapera - impressionava a freguesia.
Era revendedor autorizado da Philips do Brasil, para todo o Baixo Amazonas. O que procurasse, o santareno encontraria na "Loja Malheiros". Vicente Malheiros era o Seu Camilo daquela época.

Em 1987 Hélcio entrou para a política, em 88 era eleito vereador. No último ano da vereança, 1992, a sociedade com o seu Joaquim foi dissolvida.
Depois de vereador chegou a ser candidato a deputado estadual, fazendo dobradinha com o Hilário Coimbra, candidato a federal.

Em 1993, com a eleição do Ruy Corrêa para prefeito, foi convidado e aceitou ser seu assessor, assumindo depois a coordenadoria de cultura. Função que exerceu também no governo seguinte, do Lira Maia.

Como Coordenador de Cultura de Santarém foi parceiro de primeira linha do ICBS. Com ele conseguimos editar o primeiro livro, em 1998, escrito pelo amigo comum Eymar Franco, denominado "O Tapajós que eu vi".

Voltou a estudar. Em 2005 colou grau de bacharel no curso de Gestão de Órgãos Públicos, nas Faculdades Integradas do Tapajós. Festa que reunião quase todos os irmãos que vieram de Manaus, Belém e São Paulo, para participar do jantar no Iate Clube.
Família Amaral com seus dez irmãos. Família do início do século XX que não se reproduz mais no século XXI.

No dia 29 de junho de 2008, um domingo, fui com a Rute visitá-lo em sua residência. Tinha chegado de Manaus onde foi submetido a uma cirurgia na próstata. O encontramos com boa aparência, bem disposto. Nos contou todo seu drama a partir de quando o médico o avisou de que estava com câncer. Enquanto descrevia o início do seu sofrimento, chorou.

O tempo passou, em 2011 veio conversar comigo no ICBS, estava querendo saber o nome cientifico da juta.
Estava escrevendo um livro sobre o que ele denominava de "fragmentos históricos da Amazônia".
Batemos longo e agradável papo, aproveitei a ocasião e o convidei para participar do nosso Projeto Memória Santarena. Aceitou! A entrevista foi realizada no dia 09 de janeiro de 2015.

Mostrei-lhe a entrevista que fizemos com o seu Totó Amaral em outubro de 1989, lá na Fazenda São Nicolau, fronteira dos municípios de Juruti, Santarém e Óbidos.
Ele e o Eymar Franco foram os entrevistadores do cativante Totó, a se embalar na sua rede atada na varanda da casa, a receber na face a brisa refrescante que soprava do Leste.

Vivemos momentos de verdadeiros amazônidas, colhendo ovos de tracajá em frente da casa do seu Totó, a pegar com as mãos peixes aprisionados nos pequenos lagos que secavam.
Fico a pensar na sorte que tive em poder passar um dia a conversar com figuras como Eymar Franco, Hélcio e seu Totó Amaral, ao mesmo tempo.
Ao ver as imagens da fazenda São Nicolau, Hélcio se emocionou. Ao tentar reconstruir o passado, chorou!

Em 2017, através de trabalho dedicado da sua filha Nilza, ficamos conhecendo "O guardador de memórias - fragmentos históricos da Amazônia", livro de crônicas sobre os ciclos econômicos e a cultura da região.
Escrito por quem viveu voltado para as letras e para a preservação da nossa cultura, figura bastante conhecida na cidade de Santarém e querida de todos, como bem definiu Denise Gomes, que prefaciou o livro, ela graduada em História e doutora em Arqueologia.
O livro foi lançado no mesmo ano, durante o Salão do Livro, em Santarém.

À cada visita que lhe fazia sentia que estava a perder o amigo. No início de 2019 o encontrei ainda disposto, mostrou-me sua biblioteca, falava de cada livro, contava suas histórias particulares, como se estivesse falando de um filho, de um parente querido.

Nas próximas visitas já o encontrava sonolento, não conseguia ficar com os olhos abertos, nem conversar.
Ontem, 17 de junho de 2019, Hélcio Amaral de Sousa faleceu.
Foi sepultado hoje

Hélcio foi sócio fundador da Academia de Letras e Artes de Santarém - ALAS - e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós - IHGTap.
Em 2013 foi agraciado com a medalha João Felipe Betendorf.

Descanse em Paz meu Amigo!


        


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