Dr. Ozires - 15.03.2020

Dr. Ozires

Convivi pouco com o médico Ozires, mas o bastante para conhecer, nesses poucos momentos de convivência que tivemos, como ele era simples, humilde e bom de conversa.

E esses momentos de convivência foram em ambientes bem diversos, no Bar Mascote e nos hospitais. O único momento, fora desses dois ambientes, que lembro ter passado com ele, foi em 2016, no dia 21 de março, quando no ICBS entrevistei ele e o Dr. Pedro Novoa.

No Mascote, ele fazia parte de um grupo de amigos que possuía mesa e garçonete especiais, que ficou conhecido como "Senadinho", do qual faziam parte Zé Ronaldo, Geraldo Sirotheau, Luiz Neves, Celivaldo Carneiro, Luiz Leal, Pedro Novoa, Guarany, Pedro Evaldir, Celso Matos, os irmãos Carlos e Jose Carlos Meschede, dentre outros "senadores".

Eu era frequentador bissexto do "Senadinho", aparecia numa sexta-feira qualquer e não demorava muito na roda.

Roda onde as notícias da cidade corriam soltas e os ruídos ganhavam asas. Conversa alegre e variada, entremeada de piadas, pulando de um assunto a outro como se o grupo estivesse num acalorado programa de debates.

Antônio Ozires Assis de Sousa era filho do tenente Clementino de Assis, militar que veio transferido de Belém para Santarém, quando ele tinha apenas seis anos de idade.

Na conversa que mantive com ele em 2016, assim Ozires falou sobre a vinda da família para morar em Santarém:

"Passei a parte boa da minha vida como criança e juventude aqui em Santarém. Quando meu pai faleceu nós fomos embora daqui, eu fui quase levado à força, sob protesto. A família foi embora e minha mãe nunca deixou eu passar as férias aqui, com medo de eu ficar e não voltar. Quando meu pai faleceu eu estava com 14 anos".

Formado pela Faculdade de Medicina do Estado do Pará, em 1971, fez residência no Hospital dos Servidores do Estado no Rio de Janeiro, em ortopedia. Terminado a residência, passou somente dez dias em Belém, já estava com o pensamento fixo em voltar pra Santarém.

Ozires continuou: "Então minha mãe não deixava eu vir aqui em Santarém e eu tinha uma saudade daqui imensa, tanto que quando eu voltei preparado do Rio de Janeiro, ela estava pensando que eu ia ficar em Belém".

"Eu tinha feito um bom estágio com o Humberto Maradei na Clinica dos Acidentados, uma clinica famosa de Belém.

O Maradei quando encontrava com a minha mãe perguntava, quando é que o Osíris vem pra cá?

Então, quando eu disse pra ela que eu vinha pra Santarém ela teve um choque, não que ela não gostasse de Santarém, mas ela pensava que Santarém ainda era como ela deixou, que quando saímos daqui não tinha luz de dia, tinha no máximo uns quinze carros, era uma coisa assim".

"Eu disse não mamãe, eu vou pra Santarém, e ela pra Santarém? É, eu vou pra Santarém, se não der certo eu volto, mas eu vou tentar minha vida em Santarém e vim pra cá. Isso foi no fim de 74, eu cheguei em Santarém no dia 11 de dezembro de 1974"

"Fui um dos primeiros médicos desempregados que chegou em Santarém, antigamente todo o mundo vinha pra cá já contratado pelo SESP, eu vim sem nada, cheguei aqui sem nada em termos de emprego, eu e o Dr. Orlando, viemos juntos pra cá."

"Ai fizemos uma clinica pequena, só para osso, que era a Clínica Santa Rita, ali na Mendonça Furtado, entre Moraes Sarmento e Sete de Setembro, bem ao lado do Ginásio Batista, foi lá que tudo começou, onde começamos a nossa jornada".

"Logo depois, com um ano e meio, mais ou menos, abriu concurso público para o INAMPS, em todo o Brasil, eu e o Dr. Orlando fizemos e passamos. E eu fiquei fazendo duas jornadas de 4 horas, na Clínica Santa Rita e no INAMPS".

"Ficamos nessa luta muitos anos, com fazes boas, fazes boas que eu digo é a facilidade de fazer medicina, e fazes difíceis, como operar às vezes sem anestesista especializado, sem banco de sangue, sem ter oferta de sangue".

"No nosso tempo, o banco de sangue era uma lista de doadores que o Dom Tiago tinha. Quando a gente operava sábado a tarde e precisava de sangue, telefonava pro Dom Tiago.

Ele pegava o Jeep que tinha e saía nos endereços. Cadê fulano, tá jogando bola, ia na casa de outro, cadê fulano, foi pescar, cadê o fulano, tá de ressaca. Quando ele conseguia um ou dois doadores era uma festa."

"Nesse mesmo tempo, no Hospital Municipal, antigo SESP, o pessoal fazia isso com os acompanhantes de corredor, com maqueiros.

Fulano vem cá, e colhia um pouquinho de sangue dele. Era aquela dificuldade, Santarém não tinha nada. Não era só Santarém, como todas as cidades do porte de Santarém".

"Com relação a exames, pra nós o básico era o exame de Raio X e radiografia, não tinha ultrassom, ressonância, nem tomografia. Raio X era a moda, se pedia radiografia de cotovelo, ombro, de quadril, de tornozelo, de perna, tudo era Raio X.

Exame bom, rápido e barato, que até hoje nas horas de emergência ainda supre as necessidades, principalmente em traumas e nas extremidades"

"Com relação ao período do ouro em Santarém, quando nós chegamos aqui estavam jogando dinheiro no meio da rua e não tinha quem juntasse, não só em medicina, mas em muitas coisas.

O dinheiro passava por aqui e ia todo pra São Paulo, os compradores de ouro levavam tudo.

Tem muito folclore nessa história de garimpo. Itaituba chegou a ter não sei quantas clínicas pra tratar malária".

"Dizer que se ganhava melhor do que agora, se ganhava, eu me lembro que quando o garimpo parou saiu um bocado de médico de Santarém. Eles pensavam que aqui era o eldorado. Foram embora mesmo, era gente que não tinha amor a terra, não tinha nada, queriam ganhar dinheiro, eram aventureiros.

Nós estávamos aqui por convicção.

Nossa conversa foi mais longe, passou pelas farmácias, laboratórios, SESP, SUS e outros assuntos relacionados a Santarém. Ozires demonstrou que gostava de ler, perguntei-lhe se apreciava História, e ele foi sincero na resposta:

"Eu sempre gostei de pesquisar, uma vez o meu filho perguntou, papai o senhor fala tanto de História porque o senhor não foi estudar História pra ser professor de História. Eu disse, olha, eu tive vontade, cheguei a balançar, mas quando eu vi que ganhava pouco eu me afastei de História".

O tempo passou, e até hoje o professor continua ganhando pouco!




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