Zeca BBC e o fim da 2ª Guerra Mundial - 08.05.2020

Zeca BBC e o fim da 2ª Guerra Mundial

 

A história registra que na madrugada de 1º de setembro de 1939, a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler marcou o começo da Segunda Guerra Mundial. Considerado o maior conflito da humanidade, prolongou-se até 1945. Conflito travado entre os países Aliados: Reino Unido, França, EUA e URSS; contra os do Eixo: Alemanha, Itália e Japão. Guerra que dizimou aproximadamente 60 milhões de pessoas, sem contar a destruição material ocorrida nos países envolvidos. Além de ficar marcada pelos horrores do Holocausto, que ceifou a vida de cerca de 6 milhões de judeus nos campos de concentração alemães.

Não irei me ater a comentar o desenrolar dessa guerra que aconteceu bem longe de Santarém, e que está disponível nos livros de História e no Google. Mas, mesmo distante, ela conseguiu mexer com a estrutura de algumas famílias que aqui viviam. Imigrantes alemães e japoneses eram vistos com desconfiança por parte da população e do próprio governo, pois o Brasil estava do lado dos Aliados. Na tentativa de resolver os atritos, em 1943, foi criado na cidade de Tomé-Açu um campo de concentração, para onde foram levados japoneses e alemães, que retornaram para as suas cidades após o término da guerra. Como foi o caso do patriarca da família Meschede, em Santarém.

 O fim da guerra aconteceu no dia 08 de maio de 1945, há exatos 75 anos, e foi anunciada com euforia aos santarenos pelo mecânico José da Costa Pereira, famoso Zeca BBC, figura que o Emir Bemerguy gostaria de ter traçado seu perfil para que ficasse perpetuado naquela galeria de "Seleções do Reader's Digest", intitulada "Meu tipo Inesquecível" .

Nos dias 01 e 02 de setembro de 1988, em companhia do amigo Emir, colhemos o depoimento do Zeca BBC para o Projeto Memória Santarena, depoimento que em 2011 foi transformado no livro "Zeca: o BBC de Santarém".

Lúcio Flávio Pinto prefaciou o livro, assim descreveu o Zeca BBC:

 "Foi o homem mais curioso que conheci na vida. Homem entroncado, que andava com pressa, sempre no seu macacão azul, todos os botões superiores desabotoados, a exibir o peito cabeludo, de forma natural e displicente. Andava às pressas, como se fosse fazer algo urgente. Mas parava de súbito e ficava um tempão a conversar, como se tivesse a vida em permanente disponibilidade. Era dono do seu nariz, do seu tempo, do seu espaço, da sua história".

"O prazer era o princípio e o fim em tudo o que fazia, fosse no ofício que lhe garantia a sobrevivência, ou na diversão – as duas dimensões do fazer frequentemente combinadas. De certa  forma, era na cidade algo equivalente ao professor Pardal, personagem de história em quadrinhos criado por Walt Disney, sempre a adaptar, ajeitar ou mesmo inventar. A diferença é que tinha uma marca lúdica, satírica e gozadora, própria do caboclo amazônico, incapaz de reduzir sua atividade a cifrões ou quaisquer outros números. Bens materiais, dinheiro, fama e outros elementos de status eram desconhecidos para Zeca BBC".

Realmente o lado humano do Zeca era notável, ponto marcante da sua postura ética que deixava visível a importância que dava aos seus semelhantes, sem distinção de cor, raça ou credo.

A oficina mecânica do Zeca ficava em frente da Praça do Pescador, ao lado da Casa Feliz, de propriedade do Abelardo Gentil. Manhã de maio de 1966, depois de uma noite chuvosa, estavam reunidos em frente da Casa Feliz a conversar, o dono Abelardo, Phebus Dourado, Zeca BBC e seu irmão Joaquim da Costa Pereira.

Alguém passa por eles e dá a notícia: caiu a frente da casa do seu Phebus. Joaquim Pereira pede ao Abelardo que telefone para a casa do Phebus, pra checar se a notícia é verdadeira. Abelardo entra na loja, telefona, e quem atende na casa do Phebus já foi o Zeca BBC. Quando soube da notícia, de imediato foi socorrer a família do amigo Phebus. Ele era assim!

José da Costa Pereira ficou conhecido como Zeca BBC depois que comprou um rádio que funcionava com bateria. Passou a escutar todos os dias a BBC de Londres. Em 1938, ouviu a primeira transmissão da emissora para o Brasil. No período da guerra, como tinha boa memória, ouvia e repassava as notícias aos amigos. Ganhou o apelido de Zeca BBC.

Como todos os dias ele escutava a BBC de Londres, no dia 8 de maio de 1945, uma terça-feira, teve a oportunidade de dar a fantástica notícia aos santarenos, em primeira mão, de que a  guerra tinha chegado ao fim. Zeca saiu de sua casa correndo em direção ao Bar Mascote, gritando pela rua que a guerra tinha acabado. Logo foram se aproximando os amigos Abraão Serruya, Fernando Veiga dos Santos, Moacir Bandeira de Melo, a eles se juntaram vários curiosos. Comandados pelo Zeca BBC, saíram em passeata percorrendo as ruas da cidade num verdadeiro delírio, pela satisfação de anunciar o fim da II Guerra Mundial.

Durante a nossa entrevista com o Zeca, o Emir disse que era um menino de 12 anos em 1945, e que nesse dia 8 de maio estava ali por perto do Bar Mascote, e presenciou o anuncio do fim da Guerra.

Infelizmente não ficou nenhuma imagem desse momento que marcou a vida do Zeca BBC e dos que participaram da passeata da vitória dos Aliados. Fico a imaginar a cena inusitada do anuncio do fim dessa guerra em Santarém, que para Sir Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, "Isso não é o fim; não é nem o começo do fim; mas, talvez seja o fim do começo".

Quando o fato de que em 1938 o Zeca BBC ouviu a primeira transmissão da Rádio BBC de Londres para o Brasil, chegou ao conhecimento da Emissora, ele foi procurado pela locutora da BBC, Maria Costa Pinto, que o entrevistou por telefone. A entrevista foi ao ar no dia 16 de agosto de 1988, nessa data a emissora completava 50 anos de transmissão ininterrupta para o Brasil, e a entrevista foi a forma que encontraram para homenagear o seu famoso ouvinte: Zeca BBC.

José da Costa Pereira nasceu no dia 18 de setembro de 1919.

Faleceu no dia 23 de agosto de 1996. 




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