Velharias preciosas - 23.09.2020

O alemão Arthur Schopenhauer (1788/1860), considerado o filósofo do pessimismo, afirma nos seus escritos teóricos que a pessoa infeliz vive mais que a feliz porque o sofrimento custa a passar, é mais duradouro. Enquanto a felicidade passa com a velocidade de Usain Bolt, a infelicidade é possuída pela lentidão  do bicho preguiça. 

O filósofo tem razão. Pois hoje, 23 de setembro, o ICBS completa 39 anos de existência, tempo que não senti passar, pois ainda vivo momentos de felicidade desde quando tivemos a ideia de montar, na sala de casa, a Biblioteca Boanerges Sena. Parece que foi ontem!

Não imaginávamos chegar aonde chegamos. Hoje, olhando para o início, nossa ousadia nos causa orgulho e espanto: conseguimos montar amplo espaço frequentado por alunos do ensino fundamental, universitários e pesquisadores brasileiros e estrangeiros; editar dezenas de livros; ter reconhecimento nacional e internacional; ter a marca ICBS identificada com a preservação e divulgação da memória de Santarém, procurada por pesquisadores que buscam matéria sobre a história da Amazônia. Tudo planejado e executado por um engenheiro florestal e uma bancária, exemplo vivo do poder do querer!

Conquistamos a confiança das pessoas que passaram a conhecer o alcance do nosso trabalho. Com a página do ICBS na internete (www.icbsena.com.br), os livros raros do nosso acervo passaram a ser procurados com mais frequência para pesquisa.

Durante esse período de existência recebemos algumas demonstrações de apreço e carinho. Raimundo Magina, ex-gerente adjunto do Banco do Brasil em Santarém, em 30 de setembro de 1988, nos ofertou um livro com a seguinte dedicatória:

"Acho que a preservação da memória, das boas obras, de tudo aquilo que o homem, em momento de rara inspiração criou, é tarefa das mais ingentes e apaixonantes. Muita coisa existe por aí, perdidas em escaninhos e consoles, em oratórios e ermidas, baús e caçuás. Àqueles que têm o dom da coleção, o faro da pesquisa e o ardor da batalha compete reunir todo esse acervo e, como legado à posteridade, coordenar, catalogar, encadernar e livrar da ação deletéria do tempo e dos predadores.

Você é um desses abnegados, desses poucos heróis, que, na calada do anonimato, vão tecendo a grande memória de um povo, de uma cidade, de uma região, ou mesmo de sua família. É, assim, com muito orgulho que eu lhe faço presente deste exemplar de "Os Lusíadas", edição portuguesa de 1898. Espero, com toda a modéstia, que lhe agrade. Deste que te admira. Raimundo Magina" 

Emir Bemerguy, companheiro de convívios culturais, na década de 1980 escreveu uma crônica que me deixou, por instantes, vaidoso, mas também me trouxe a certeza de que estávamos no caminho certo, e que a nossa responsabilidade em manter fragmentos da História de Santarém e região,  aumentaria com o passar do tempo. A convicção de que somos úteis me conforta, é a  energia que nos estimula a continuar. 

  Emir deu o título de "Velharias Preciosas" para a sua crônica, publicada no dia 30 de julho de 1989:

"Por desinformação, maldade ou inveja, uns três ou quatro cidadãos acham que Isoca, Dororó e eu queremos que toda a Cultura Santarena gire em torno de nós. Deus sabe que isso é mentira e perdoará os pequeninos caluniadores, dos quais temos apenas compaixão. A verdade mora em outro bairro. Vivemos fazendo o possível para sair das berlindas e dos holofotes. Procuramos dar vez a outros, retraindo-nos, buscando as sombras do anonimato. Não temos culpa de sermos solicitados, de nos procurarem com uma frequência muitas vezes inoportuna, incomodativa. Se nos negamos, apedrejam-nos.

Escrevi as linhas anteriores pensando num conterrâneo que merece um lugar na galeria dos grandes baluartes de nosso ainda portentoso patrimônio cultural.

Quando se é tentado a garantir, em termos definitivos, que tudo virou pó e cinza, sob o bate-estacas da modernidade televisiva, aparece alguém como Cristovam Sena.

De fato, é incrível descobrir-se que no país da Xuxa, do Faustão, da Dercy Gonçalves, um engenheiro florestal relativamente jovem preferia a companhia poeirenta de revista, jornais e livros muitos antigos, de fotografias seculares. E não se esgota entre papéis antigos a obsessão preservacionista de meu admirável amigo.

Cristovam possui, a esta altura, quase cento e cinquenta fitas de videocassete, abrangendo uma variedade estonteante de assuntos como ecologia e futebol, documentação de enchentes, episódios significativos que vai recolhendo nas várzeas, nas Colônias, em qualquer lugar, pois anda sempre com a sua câmara engatilhada para o flagrante especial. É repórter e historiador, pondo a vocação a funcionar em benefício da terra santarena. No momento, desenvolve mais um trabalho empolgante, o "Projeto Memória Santarena". Convida amigos como Doróró, Manuel Dutra e eu, ficando a tomar depoimentos de gente idosa, que tem muito a contar sobre o passado.

Quando a conversa é mais breve, dura duas horas, como aconteceu com Dom Tiago Ryan, Agapito Figueira, Eimar Franco. Naturalmente, reservamos um tempo maiorzinho para o formidável Zeca BBC, que precisou de quatro horas para resumir suas lendárias andanças. Inúmeros outros mocorongos - damas e cavalheiros - estão relacionados para os próximos encontros. É fácil avaliar-se a relevância impressionante da obra anônima do doutor Sena.

Eu já falei sobre os arquivos do Cristovam na “Rádio Tropical”, na televisão e, agora, dedico a crônica a eles. O dono do tesouro tem um apego imenso ao seu acervo e foi com relutância que admitiu uma divulgação mais ampla daquilo que faz em silêncio, há muitos anos.

Só ele mexe nas relíquias, é organizado, cataloga tudo. Entende que se aparecer alguém querendo melhorar, estraga o que lhe dá tanto trabalho, que ele executa com enlevo espiritual, porque ama aquilo e agradece ao falecido pai, Boanerges Sena, de quem herdou a paixão por antiguidades. Todavia, consente que eu formule um apelo: quem tiver alguma coisa - documentos, retratos, publicações - das décadas que se foram e não saiba o que fazer com eles, entregue-as a Cristovam Sena. Ele saberá como preservá-las. Vai conservando o seu fabuloso patrimônio até que Santarém possua um local condigno que possa acolher, com segurança, essas velharias preciosas. Ao engenheiro, a “Perola do Tapajós” agradece, espantada."

Só me resta agradecer as palavras carinhosas do Magina e do Emir, elas nos servem de acalanto, nos fazem adormecer na hora em que os aperreios de caixa aparecem. Espero que os aperreios não se transformem, um dia, em pesadelo!

Hoje, o patrono do ICBS, Boanerges Sena, se vivo fosse, estaria completando 103 anos.