O Querer e o Saber - 03.06.2016

Manuseando no ICBS jornais de Santarém da década de 1930/40, chamou-me atenção os anúncios fúnebres. Neles, uma pessoa com 45 anos era anunciada como se tivesse falecido uma "anciã". A expectativa de vida naquela época era baixíssima. Hoje, aos 45 anos ainda somos "jovens".

Com o passar das décadas a expectativa de vida dos brasileiros vem aumentando de forma gradativa. Pelo censo do IBGE 2010, existiam 23.760 patrícios centenários. Hoje deve ter um pouco mais. Quem sabe um dia não chegaremos a alcançar a longevidade das tartarugas.

Mesmo com vida mais longa, é frequente escutarmos que hoje vivemos pior do que ontem. Que a tendência é piorar. Será?

Em alguns aspectos, creio que sim! A violência urbana aumentou e a área verde por habitante diminuiu bastante na cidade e no interior. Em muitos outros aspectos, não! A começar pela expectativa de vida que usufruímos hoje.

Por falar em área verde na cidade, a da Praça da Matriz diminuiu bastante, quase sumiu, com a retirada recente de mais três benjaminzeiros. Se não houvesse perigo de cair e deixassem para arrancá-los somente em 2017, completariam 100 anos.

O advogado Dr. Oscar de Gouveia Barreto, intendente municipal (1914/18), construiu a praça e plantou as árvores em 1917. Já no governo do prefeito Ronaldo Campos (1986/88), ela foi ampliada e ganhou um espaço com o pomposo nome de Complexo Arquitetônico.

Hoje pode ser chamada de tudo, menos de praça. Deixou de se constituir em local de convívio social por excelência, a reservar um cantinho para os namorados, para a leitura despreocupada do jornal do dia, para uma olhada rápida pelo whatsapp e face book. Invadida que foi pelos ambulantes, virou um camelódromo desorganizado.

Entre o Teatro Vitória e a Igreja Matriz, nesse pequeno trecho, existem três praças: Praça Rodrigues dos Santos, em frente ao Teatro Vitória e ao Mercado Modelo, onde nos idos de 1960 a garotada jogava pelada e os pequenos circos armavam suas lonas; Praça Monsenhor José Gregório, conhecida como Praça da Matriz, a mais antiga da cidade que, impotente, assiste a morte dos seus centenários benjaminzeiros; e a Praça da Bandeira, incrustada num pequeno espaço entre as duas primeiras, limitada pela travessa João Otaviano de Matos e os fundos da Garapeira Ipiranga. 
Sem ser domingo ou feriado, flanar por elas admirando o Tapajós é impossível.

No nosso tempo de rapazinho - lá se vai meio século - durante os festejos do arraial de Nossa Senhora da Conceição, a turma ficava a admirar as garotas voltearem pelo quadrilátero calçado da Praça da Matriz, a desfilar com seus vestidos novos, na esperança que uma troca de sorrisos iniciasse um namoro fortuito.

Era também nosso ponto de encontro antes e depois dos filmes do Cine Olímpia, com a noite terminando no puxadinho de madeira do Bar Mascote para um sorvete de baunilha com coca-cola.

A nos incomodar somente o "lacerdinha", minúsculos insetos que infestavam os benjaminzeiros da praça. Quando um deles caia no olho a dor era terrível, um verdadeiro inferno. A roupa clara os atraía.

Assim como hoje o brasileiro vive mais em função de terem melhorado o tratamento a ele dispensado (saúde, saneamento), os benjaminzeiros da Praça da Matriz poderiam estar ainda saudáveis se tivessem recebido o tratamento que mereciam. 
Foram invadidos pelo Struthanthus flexicaulis, popularmente conhecido como "erva de passarinho", parasita agressivo de caule flexível, longo, que se fixa na planta e em pouco tempo a asfixia, sugando-a até a morte. 
Como não houve controle sistemático do invasor, os benjaminzeiros sucumbiram ao ataque do Struthanthus flexicaulis. O mesmo destino tiveram, e continuam tendo, centenas de árvores espalhadas pelas ruas e praças da cidade.

O certo é que Santarém avançou, não tanto quanto deveria, mas avançou na questão associada ao sistema de saúde da população. Precisa agora melhorar no sistema de saúde das plantas. Melhora que irá beneficiar a própria saúde da população. A cidade necessita ser arborizada com urgência. Além da função paisagística, a arborização urbana diminui a poluição sonora, melhora o clima, atrai pássaros.

A Praça Barão de Santarém, mais conhecida como Praça São Sebastião, foi arborizada em 1940, na administração do prefeito Mário Guimarães (1939/43). Antes, em 1932, numa decisão que beneficiou algumas famílias e questionada até hoje, tinha sido diminuída em 15 metros de cada lado (sentido leste/oeste) pelo prefeito Ildefonso Almeida (1931/32).

A arborização da Praça São Sebastião foi idéia de Francisco Gronge da Silveira, funcionário do IBGE em Santarém, que definiu os espaços onde seriam plantadas as mangueiras. Sugeriu que cada mangueira fosse plantada por uma pessoa conhecida, que tivesse alguma ligação com a cidade. Uma delas foi plantada pelo maestro Isoca.

Que eu lembre, a última arborização planejada em Santarém ocorreu em 1993. Primeiro ano do governo do prefeito Rui Corrêa (1993/96). Quem respondia pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente era o Promotor de Justiça, Jorge Mendonça.

À época, em parceria com a UFPA - atual UFOPA - o município participou de forma efetiva no trote-ecológico dos calouros daquele ano. Foram plantadas as mangueiras que hoje dão sombra e fruto na Av. Cuiabá, do viaduto até o cais do porto. Na avenida Marechal Rondon, perto do prédio da Universidade, e em outras avenidas da cidade.

Interessante notar que tanto Oscar de Gouveia Barreto como Francisco Gronge da Silveira e Jorge Mendonça, nenhum deles tinha formação acadêmica relacionada ao meio ambiente, à área agrícola.

Um dia, 17 de junho de 1989, conversando com o amigo idealista Erick Imbiriba sobre a região do Lago Grande e a fibra do curauá, ele me disse que o querer é mais importante que o saber.

A frase do Erick é didática, explica a iniciativa dos três - Oscar, Francisco e Jorge - e martela até hoje na minha mente!

Virou mantra!