Diário Indecifrável - 08.11.2019

Diário indecifrável

Em janeiro de 1992 conheci o senhor Rolf Ernest da Cunha Strympl. Ficamos amigos, nossas conversas giravam em torno das realidades amazônicas.
Tornaram-se mais frequentes nossos encontros depois que fiquei sabendo que Rolf era filho do célebre entomologista tcheco Alois Strympl (1889/1953), que passou por Santarém no início do século XX.

Tomei conhecimento, mais tarde, que seu pai Alois tinha casado com a senhora Ibrantina Pereira da Cunha, tia do meu saudoso amigo Eymar da Cunha Franco.

Quando soube da existência da Biblioteca Boanerges Sena, Rolf passou a me oferecer algumas obras que pertenceram ao seu pai, que fui adquirindo aos poucos.
Entre os livros, mapas e outros documentos adquiridos, vieram dois diários, um escrito em português, datado de 1947, que descreve as suas novas descobertas de borboletas do gênero Agrias, que ele denominou de "26 anos caçando Agrias na Amazônia: 26 anos da minha vida dediquei, com corpo e alma a esta tarefa e pretendo ainda continuar na mesma".

Em companhia do alemão Anton Heinrich Fassl (1876/1922), também entomólogo, Alois chegou em princípios de 1920 em Belém. Em seguida vieram para Santarém e se estabeleceram na fazenda Taperinha, localizada no Ituqui, a 80 km de Santarém.

Taperinha representou a primeira etapa e o inicio de inúmeras outras viagens pelo interior do Pará e do Vale Amazônico. Viagens calculadas para quatro anos, que foram interrompidas em 1922 devido a repentina morte do entomólogo Anton, no Rio Solimões.

Com a morte do amigo, Alois casou, constitui família, e cancelou seu retorno para "... a velha Europa, cansada e devastada pelas guerras", como deixou registrado no seu diário.

Já sozinho, percorreu os rios Amazonas, Tapajós, Madeira e Solimões. Após 26 anos de pesquisa de campo, foi trabalhar no Museu Paraense “Emilio Goeldi”.

Apaixonado pelo trabalho que desenvolvia, no seu diário Alois menciona certos fatos das suas peregrinações entomológicas pela Amazônia:
- "Esse tempo das minhas viagens ofereceu-me oportunidade de ficar maravilhado, vislumbrado e apaixonado pelos representantes da fauna entomológica, especialmente dos da família Nymphalidae e predominantemente do gênero Agrias".

- "Graças à minha paixão e dedicação, demonstrada por mim na captura, não medindo esforços e sacrifícios, obtive resultados até agora por ninguém alcançados, relativos à quantidade e variedade de Agrias, não somente das espécies já conhecidas, como também das novas espécies por mim descobertas... Não quero com isso dizer que definitivamente conclui esta tarefa. Muito ainda espera a ser desvendado, grande ainda as áreas que nunca foram pisadas por civilizados e consequentemente por cientistas, muitas terras e rios do imenso Brasil e especialmente do Vale Amazônico até hoje dormem o seu sono de terras imaturas e incógnitas, esperando por uma exploração cientifica, sistemática e econômica".

O diário em português está datilografado e já foi publicado pelo Emílio Goeldi. Concluído em Belém em novembro de 1947, contem 36 páginas, onde estão descritas suas descobertas de novas espécies de borboletas, especialmente as Agrias.

O segundo diário de Alois Strympl contém 138 páginas manuscritas. Já fiz algumas tentativas para traduzir o valioso documento. Um pesquisador, de passagem pelo ICBS, a quem mostrei o diário, afirmou ter sido escrito em alemão antigo.

No ano de 2012, dia 23 de março, aconteceu a instalação do IHGTap - Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, do qual faço parte. A solenidade ocorreu no salão da Câmara Municipal de Santarém, presidida pela historiadora santarena radicada em Belém, Ruth Burlamarqui de Moraes, que veio representar o Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGPA).

Esteve também participando da solenidade o historiador Arno Wehling, presidente do IHGB – Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Padre Sidney Canto foi o primeiro presidente do IHGTap e, em seu discurso de posse, teceu comentários a respeito do ICBS.
Após a solenidade, conversei com o presidente Arno que demonstrou interesse em conhecer o Instituto. O que aconteceu no outro dia, um sábado.

O presidente do IHGB veio em companhia do padre Sidney. Aproveitei a oportunidade para falar sobre o diário do Strympl. Tirei cópia de três páginas do documento para ele levar para o Rio de Janeiro. Sem garantir nada, disse que iria ver se conseguiria alguém para traduzi-las. O tempo passou, fiquei sem receber resposta se conseguiu ou não.

Há uns três anos, fui com o amigo e colega de Dom Amando, químico industrial Sérgio Cacela Alves, ao Emílio Goeldi para conversar com o Nelson Sanjad, do setor de comunicação, responsável pelas publicações do Museu. Levei-lhe cópia de páginas do diário do entomólogo que tinha trabalhado no Museu, e tudo não passou da visita.

Conversando com o Manuel Dutra, ele comentou a respeito do professor do curso de linguística germânica da UFPA, Michael Arnegger. Depois de falar com o professor sobre o documento, solicitou a cópia de algumas paginas do diário para sua análise.
Michael informou ao Manuel que o texto tinha sido escrito antes da reforma, por um não alemão, e que teria dificuldade para a tradução. E o caso estancou por aí.

Em dezembro de 2015, participando de mesa-redonda na UFOPA sobre História e Arquivos, falei sobre o diário do Alois, despertando interesse no professor na UNIFESP, João Tristan Vargas, que veio conhecer o ICBS e levou cópias de algumas páginas para ver se conseguia traduzi-las.

O tempo passou. No dia 29 de setembro de 2019, Tristan entrou em contato comigo, informou que finalmente tinha encontrado quem poderia traduzir o diário: um professor da USP.
A notícia me deixou animado mas, no dia seguinte, ele pedia desculpas, o professor não iria mais realizar o trabalho. Afirmou, entretanto, que continuará na busca de um tradutor, compromisso assumido com a História.

O diário está incompleto, não tem capa e algumas páginas estão soltas. A primeira das 138 páginas está com a data de 23 de dezembro 1919.
Alois estava viajando para o Brasil, pois no seu diário escrito em português, ele inicia assim: "Em companhia de A. H. Fassl cheguei em princípios de 1920 em Belém de onde parti, depois de indispensável demora, para Taperinha, via Santarém..."

No dia 7 de fevereiro de 1920, Alois informa que já está no Pará, em Bragança. No dia 24 do mesmo mês chega a Santarém e, no dia 25, em Taperinha.
Dia 10 de maio sobe o Tapajós em direção a Itaituba, passando por São Luiz e Barreiras. Passou 26 anos viajando pela região.

Um dia, quem sabe, com a ajuda dos amigos pesquisadores, descobriremos o que está escrito no até então indecifrável diário do Alois Strympl.

Fotos:
1 - Alois Strympl, primeiro a esquerda, no Emílio Goeldi
2 - Uma página do diário de Alois
3 - Borboleta Agria